• Luiz Carlos Hauly

O tsunami silencioso

LUIZ CARLOS HAULY


A tragédia provocada pelos tsunamis de 26 de dezembro revelou a capacidade de mobilização de todo o mundo para atenuar o drama das populações afetadas. Mais de 200 mil pessoas morreram (e este número aumenta praticamente a cada dia) e cinco milhões estão ameaçadas pela fome e epidemias. Recursos, equipamentos e voluntários continuam a chegar aos locais atingidos, caracterizando um movimento histórico de solidariedade.


As Nações Unidas advertem que a cada cinco dias a pobreza provoca no mundo uma tragédia equivalente ao mais recente tsunami. A cada ano, o total de mortes provocadas pela pobreza, que vitima principalmente crianças, equivale a 68 tsunamis.


Esses números constam do relatório divulgado pela ONU em 17 de janeiro, através do qual a organização – que contratou 265 especialistas das mais diversas áreas para sua elaboração – alertou sobre a grande tragédia que é a pobreza extrema que vitima pela menos um quinto da população do planeta. Tragédia denominada pelo coordenador do trabalho, o renomado economista Jeffrey D. Sachs, da Universidade de Colúmbia, como “tsunami silencioso”.


A divulgação desse relatório ocorreu num momento propício, pois a partir do dia 26 dois acontecimentos estarão centralizando as atenções da opinião pública mundial: o Fórum de Davos, Suíça, que reúne os chefes de Estado e de governo dos países ricos e administradores das grandes corporações comerciais, financeiras e industriais, e o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, criado para ser o contraponto do primeiro por enfocar as questões sociais acima das econômicas.


Pois o encontro dos ricos abordará desta vez – e esperamos que seja com profundidade – as disparidades entre os países mais industrializados e os em via de desenvolvimento e esboçará uma estratégia comum para atenuar esse desequilíbrio. Um dos pontos da agenda do encontro é a liberação do comércio mundial, tema que tanto confronto tem provocado na Organização Mundial do Comércio por sua obviedade: enquanto os países industrializados impõem restrições à entrada de produtos dos países em desenvolvimento sob a alegação de proteger seus produtores – aos quais, aliás, subsidiam generosamente -, os países em desenvolvimento deixam de gerar riquezas que contribuiriam decisivamente para atenuar a pobreza de suas populações.


O estudo da ONU veio acompanhado de uma cobrança: os países ricos já deveriam estar investindo, como foi acordado na Conferência do Milênio, em 2000, 0,5% de seu Produto Interno Bruto em programas de assistência social em países em desenvolvimento. A Conferência do Milênio, realizada em Roma, reuniu pela primeira vez os países membros da ONU para propor medidas realistas de combate à pobreza no mundo, que atinge principalmente a África subsaariana e grande parte da Ásia.


Cinco anos se passaram e a meta de reduzir pela metade, até 2015, o 1 bilhão de vítimas da fome está longe de ser alcançado. Os Estados Unidos, por exemplo, a nação mais poderosa e rica do mundo, investem apenas 0,7% de seu PIB em programas assistenciais nos países em desenvolvimento. A Grã-Bretanha, em contrapartida, dedica 0,35% de sua riqueza em programas sociais e se compromete a dobrar esse evoluem até 2013.


Os países em desenvolvimento, entre os quais se inclui o Brasil, embora nossa situação comparada à da África e Ásia seja menos dramática, requerem, e com urgência, esse desprendimento dos países ricos. Se as metas da Conferência do Milênio forem cumpridas, acredita o professor Saachs, a extrema pobreza poderá ser eliminada nesta geração. “Se quisermos eliminar a extrema pobreza, podemos fazer isso até 2005”, disse o economista.


Por que não tentar? Este é o desafio aos países ricos. Esta pode ser a grande chance de o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, diminuir os riscos ao seu país, riscos que aumentam na medida em que aumenta a insensibilidade de seu governo em relação ao drama social do planeta.


LUIZ CARLOS HAULY (PSDB-PR) é membro da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados


*Publicado pelo O Diário de Maringá em 26/01/2005

Publicado em A Gazeta do Paraná; Jornal de Brasília em 08/02/2005

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Desenvolvimento: Leonardo Giovanni F Rodrigues

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