• Luiz Carlos Hauly

O presidente e as chamas

Brasília está em chamas, consumida pelas labaredas inclementes das denúncias de corrupção que atingem o Executivo e parte do Legislativo. E como se comporta o presidente Lula? Não é ele, até prova em contrário, o incendiário, mas – num exemplo caricato do imperador romano Nero – toca a lira enquanto contempla as chamas se avolumarem ao seu entorno.


Infelizmente, a lira do presidente, que simboliza a sequência de seus discursos extemporâneos e bravateiros, não é inofensiva como o instrumento original da história que deu pretexto a este artigo. A lira de Lula tem atiçado ainda mais as chamas que consomem o que resta de sua imagem, de seu governo e do partido que o sustenta, o PT.


Dois meses depois da deflagração da crise, a mais grave desde a redemocratização, ocorrida há 20 anos, o presidente continua se comportando como se ela não existisse. O imperador romano, tido como entidade divina, vangloriava-se em meio às chamas de sua obra malsã. Lula ri, chora, esbraveja, aponta o dedo para a Nação numa seqüência de atos que evocam outra manifestação de insanidade mental de Nero, que foi empossar Incitatus membro da mais alta corte romana, o Senado. Incitatus era seu cavalo.


Comportando-se como se o país estivesse sob céu de brigadeiro, Lula trata a população como se fosse um quadrúpede, incitando-a a apoiar, apesar de todos os pesares, o único projeto que pôde explicitar desde sua posse – sua reeleição.


Em Garanhuns, sua terra natal, o presidente esgrimiu um novo estilo que, até então, limitava-se a uma seqüência irrefreável, e cada vez mais distanciada da realidade, de auto-elogios. Lá, junto de seus familiares, o presidente partiu para a provocação nua e crua. “Com ódio ou sem ódio, vão ter que me engolir”, esbravejou, referindo-se à eventualidade de tentar a reeleição (propósito que ele ora admite, ora rejeita, mantendo assim o tradicional suspense de todo candidato em ação).


O distanciamento cada vez maior de Lula em relação à crise instalada em seu governo, crise com efeitos imprevisíveis sobre as instituições e o futuro da Nação, demonstra não só o seu despreparo para o exercício da presidência; revela também o profundo abalo psicológico que os fatos lhe estão provocando.


Até o momento, Lula não pôde ser acusado de improbidade administrativa por eventual participação no mais amplo e melhor orquestrado esquema de corrupção de que o país já teve notícia. E a nação espera que isso jamais venha a ocorrer. No entanto, seu comportamento cada vez mais temerário o tem induzido a repetir um delito de gravidade capital quando praticado por quem, como ele, tem em suas mãos o comando de uma nação: o de improbidade administrativa.


LUIZ CARLOS HAULY (PSDB-PR) é membro da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados

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