• Luiz Carlos Hauly

O confisco da esperança

LUIZ CARLOS HAULY A Nação está estarrecida. A desilusão toma conta. Os desdobramentos, cada vez mais graves, sempre mais graves - até onde chegarão? -, do flagrante de corrupção envolvendo um dos diretores dos Correios sepultaram definitivamente o que restava da imagem do PT, forjada ao longo de mais de duas décadas como o partido que tinha a ética como sua força-motriz. E ameaçam o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem demonstrado, após a eclosão do escândalo, ser a sua maior preocupação neste momento gravíssimo por que passa a República - a preservação de sua biografia. A biografia do presidente já está comprometida. Tivesse o presidente agido como requer o seu cargo, com vigilância e autoridade, desde o início de seu governo e não estaríamos assistindo a este triste espetáculo de corrupção explícita que despontou nos Correios e demonstra, a cada novo episódio, ter impregnado todos os escalões do Poder Executivo. Não há provas - por enquanto! - desta metástase. Mas os indícios são tão eloqüentes, e já vinham se manifestando, primeiro nas sombras, depois despudoradamente, desde que o PT conquistou a presidência da República que, expostos à opinião pública, bastam para que o partido seja merecedor do veredito de culpado. Bastam também para que o presidente Lula seja responsabilizado por cumplicidade, na hipótese mais branda. O PT e por extensão o presidente Lula estão pagando o preço da promiscuidade que o partido governante e a cúpula do governo instituíram desde os primeiros dias de ocupação do Palácio do Planalto. Pois desde aquele 1o. de janeiro de 2003, o PT e a cúpula do governo deram sinais à exaustão de não distinguir os limites do público e do privado, dos interesses da Nação e do partido e seus dirigentes. Não fosse assim, como explicar a liberdade de o tesoureiro e o secretário-geral do partido, Delúbio Soares e Silvio Ferreira, frequentarem assiduamente e manterem gabinetes palacianos e nas sedes das ricas estatais? Não fosse assim, como explicar o patrocínio do Banco do Brasil a um show promovido para arrecadar recursos para o PT? Não fosse assim, como explicar a desfaçatez da primeira-dama Marisa de mandar plantar nos jardins do Palácio do Alvorada - patrimônio público - um canteiro de flores vermelhas no formato de uma estrela, símbolo do PT? Não fosse assim... bem, são tantos os casos de conhecimento público - citei apenas alguns entre os mais conhecidos - que o presidente Lula jamais poderá alegar, em defesa de sua biografia, que de nada sabia por estar absorto em seus afazeres como chefe de Estado. Entre eles, receber belas representantes de uma Festa da uva e as bailarinas do grupo de pagode "É o Tchan"... O governo do presidente Lula e do PT soçobrou, e da aura da ética que o fez vitorioso nas urnas não resta pedra sobre pedra. A perplexidade da Nação, portanto, é compreensível. Há 15 anos, tomava posse Fernando Collor de Mello, o primeiro presidente eleito após duas décadas de regime militar. Para ele convergiu o anseio do resgate da cidadania reprimida pela ditadura. O primeiro ato de Collor foi confiscar a caderneta de poupança, que para milhões de brasileiros era o fruto do trabalho de toda uma vida. Um dos mais preciosos direitos da cidadania foi violentado com aquele ato. A esperança levou Lula e o PT ao poder máximo da República. A esperança de que a ética, há tanto tempo violentada, seria, enfim, entronizada na condução dos destinos do País. Lula e o PT conseguiram ser ainda mais cruéis do que Collor: confiscaram a esperança. LUIZ CARLOS HAULY (PSDB-PR) é membro da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados.


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